Checklist: o que perguntar antes de contratar uma agência de marketing médico

Por Andressa Jobim · atualizado em 17 de setembro de 2026 · 8 min de leitura

A maioria das parcerias que dão errado não fracassa na execução. Fracassa no alinhamento — combinações que nunca foram feitas, expectativas que nunca foram ditas, escopos que cada lado entendeu de um jeito.

Este checklist existe para ser usado numa reunião. Vinte e uma perguntas, agrupadas por tema, com indicação do que a resposta deveria conter e do que deveria acender alerta.

Sobre experiência no setor

1. Quantos profissionais ou clínicas de saúde vocês atendem hoje? Boa resposta: um número concreto e o perfil desses clientes. Alerta: respostas vagas ("vários", "trabalhamos com diversos segmentos"). Agência generalista aplica na medicina o manual que funciona em varejo — e esse manual inclui recursos vedados pelo CFM.

2. Vocês já atenderam alguém da minha especialidade? Boa resposta: sim com exemplos, ou não com explicação de como abordariam. Alerta: prometer domínio de tudo. Ninguém é especialista em todas as áreas, e honestidade aqui é bom sinal.

3. Como vocês lidam com as normas do CFM? Boa resposta: citar a Resolução CFM nº 2.336/2023, saber o que mudou em 2024 e descrever um processo de revisão antes da publicação. Alerta: citar a norma antiga (1.974/2011) como se fosse vigente, ou dizer que "é só não prometer resultado". Quem só sabe isso não conhece o assunto.

4. Quem revisa o conteúdo antes de publicar? Boa resposta: existe uma etapa formal de aprovação sua antes de qualquer publicação. Alerta: publicação sem sua aprovação. A responsabilidade ética pelo conteúdo continua sendo do médico.

Sobre estratégia

5. Como vocês definem o que publicar? Boa resposta: a partir de posicionamento, público e objetivos definidos numa etapa inicial. Alerta: "temos um calendário de conteúdo pronto". Conteúdo pré-fabricado circula igual em dezenas de perfis.

6. Qual o processo antes de começar a produzir? Boa resposta: diagnóstico, definição de posicionamento, plano — antes de qualquer peça. Alerta: começar a postar na primeira semana.

7. Como vocês vão me diferenciar dos outros profissionais da minha cidade? Boa resposta: perguntas de volta sobre sua trajetória e diferenciais, porque diferenciação nasce daí. Alerta: resposta genérica sobre "qualidade" e "excelência".

8. O que vocês precisam de mim, e quanto tempo isso vai tomar? Boa resposta: clareza de que você é a fonte do conteúdo clínico, com estimativa realista de horas. Alerta: "não precisamos de nada de você". Conteúdo médico sem o médico é conteúdo genérico.

Sobre escopo e entrega

9. O que exatamente está incluído por mês? Boa resposta: lista específica — quantidade, formatos, canais, reuniões. Alerta: "gestão de redes sociais" sem detalhamento. É a maior fonte de conflito posterior.

10. O que não está incluído? Boa resposta: resposta direta sobre o que é cobrado à parte. Alerta: evasiva. Todo contrato tem limites; quem não os enuncia vai cobrá-los depois.

11. Quem faz o quê na equipe? Boa resposta: nomes ou funções claras, e quem será seu ponto de contato. Alerta: não saber dizer quem cuidará da sua conta.

12. Qual o prazo de resposta a uma demanda minha? Boa resposta: um prazo definido em horas ou dias úteis. Alerta: "respondemos rápido".

13. Gravações são presenciais ou remotas? Com que frequência? Boa resposta: modelo claro, com periodicidade e responsabilidade definidas. Alerta: indefinição — é o ponto que mais trava operação de conteúdo na prática.

Sobre resultado e medição

14. Como vou saber se está funcionando? Boa resposta: métricas ligadas a contato e agendamento, não só alcance e seguidores. Alerta: falar apenas de engajamento e curtidas.

15. Com que frequência vou receber relatório, e em que formato? Boa resposta: periodicidade definida, com reunião de leitura — não só um PDF automático. Alerta: relatório só quando solicitado.

16. Em quanto tempo esperam os primeiros resultados? Boa resposta: orgânico entre 30 e 60 dias para primeiros sinais, com efeito mais expressivo do terceiro ao sexto mês; tráfego pago mais rápido, nas primeiras semanas. Alerta: prometer transformação em 30 dias, ou garantir número de pacientes. Garantia de resultado, além de irrealista, é o oposto do que a ética médica admite.

17. O que acontece se os resultados não vierem? Boa resposta: descrição de um processo de revisão e ajuste de estratégia. Alerta: garantia de devolução condicionada a metas de pacientes — cria incentivo para práticas agressivas.

Sobre contrato e propriedade

18. Qual a duração mínima do contrato e como funciona a saída? Boa resposta: prazo claro, aviso prévio razoável, sem multa desproporcional. Alerta: fidelidade longa sem justificativa, ou multa que inviabiliza a saída.

19. De quem são os acessos e os arquivos? Boa resposta: as contas (Instagram, Google, Meta Ads, site, domínio) são suas, com você como administrador. Arquivos editáveis são entregues. Alerta: agência criar perfis e campanhas em contas próprias. Isso é o que transforma uma troca de fornecedor em perda total de histórico — inclusive do aprendizado acumulado pelas campanhas.

20. A verba de mídia é separada do valor de gestão? Boa resposta: separação explícita, com você controlando o valor investido. Alerta: valor único que mistura os dois.

21. Posso falar com um cliente atual de vocês? Boa resposta: sim, com intermediação. Alerta: recusa sem justificativa. Sigilo é razão legítima; desconversa não é.

Três sinais de alerta que valem mais que qualquer resposta

Prometeu resultado. Número de pacientes, posição no Google, faturamento. Ninguém controla essas variáveis — e na saúde, promessa de resultado é justamente o que a norma veda.

Não perguntou nada sobre você. Quem chega com proposta pronta antes de entender sua rotina, seus objetivos e seu público está vendendo pacote, não estratégia.

Citou a norma errada. Se a agência fala da Resolução 1.974/2011 como vigente, ela está trabalhando com uma régua substituída em março de 2024 — e provavelmente impedindo você de usar liberdades que hoje existem, ou pior, autorizando o que não pode.

Como usar este checklist

Não é necessário fazer as 21 perguntas de uma vez — ficaria um interrogatório. A sugestão prática é levar as 8 mais críticas para a primeira conversa (1, 3, 5, 9, 14, 16, 19, 20) e deixar as demais para o momento da proposta formal.

Um bom parceiro não se incomoda com perguntas. Pelo contrário: quem trabalha sério costuma gostar de cliente que pergunta, porque alinhamento evita conflito depois.

Perguntas frequentes

Devo pedir proposta para várias agências?

Vale, desde que compare escopos equivalentes. Comparar propostas com entregas diferentes só pelo preço leva à escolha errada quase sempre.

Preciso assinar contrato longo?

Contratos de alguns meses fazem sentido, porque marketing é construção acumulativa. O problema não é o prazo — é a ausência de saída razoável.

E se eu já tiver contratado alguém e a coisa não estiver indo bem?

Antes de trocar, tente uma conversa estruturada com estas perguntas. Boa parte dos casos é falta de alinhamento, não falta de competência. Se após o alinhamento nada mudar, aí sim.

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